No mundo das redes sociais, não é difícil encontrar conteúdos sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). De um lado, essas publicações estão fazendo com que o assunto entre em pauta. De outro, a quantidade de informações genéricas e, em alguns casos, até fake news, também provocam uma espécie de banalização do quadro, dificultando a decisão de buscar ajuda.
O QUE É O AUTISMO E COMO ELE FUNCIONA – Kelvis Sampaio, psicólogo clínico da Luna ABA, clínica especializada em autismo, explica que o TEA é uma condição do desenvolvimento que afeta a forma como a pessoa interage e se comunica com o mundo.
É possível exemplificar fazendo uma comparação com computadores. “Imagine que o cérebro funciona como um sistema operacional; no autismo, esse sistema processa informações sensoriais, sociais e emocionais de um jeito único. É uma configuração diferente de ver, ouvir e sentir o que acontece ao redor”, ele explica.
Mesmo com esse jeito diferente de enxergar o mundo, pessoas autistas não são todas iguais. Segundo o Glossário de Saúde Einstein, a denominação “espectro” se deve à grande variação de características e níveis de gravidade que podem ser observados. Desta forma, o TEA não cabe em um único padrão, podendo abranger diversos tipos e características.
Segundo a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, a causa do TEA não é totalmente conhecida. Estudos e pesquisas indicam que se trata de uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Alguns fatores (como prematuridade, baixo peso ao nascer, infecções durante a gestação ou idade parental mais avançada) podem aumentar ou diminuir o risco em pessoas com predisposição genética. No entanto, nenhum fator ambiental isolado é capaz de causar autismo.
CADA PESSOA É DIFERENTE – Para Kelvis, o maior erro das pessoas é achar que o autismo tem uma “cara” ou um comportamento padrão. “Muita gente ainda acredita que todo autista vive isolado em seu próprio mundo ou que todos têm um “dom genial” para matemática”.
Rosângela Rieddo, Psicopedagoga Especialista em Educação Especial e autora do livro ‘O Universo Adulto do TEA: compreendendo o universo do autismo feminino’, explica que as evidências científicas apontam que existe uma grande variedade no funcionamento cognitivo entre pessoas autistas.
“Muitas apresentam habilidades preservadas ou até acima da média em áreas específicas, o que pode incluir características relacionadas às chamadas altas habilidades ou superdotação. No entanto, é importante destacar que isso não se aplica à totalidade dos casos, reforçando a necessidade de compreender o espectro de forma ampla, individualizada e livre de estereótipos.” esclarece a psicopedagoga.
Para Rosângela, o diagnóstico individualizado também se deve ao fato de que raramente o TEA se apresenta de forma isolada. A psicopedagoga afirma que o Espectro Autista frequentemente é acompanhado por condições como depressão, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
MENINOS X MENINAS – Nos últimos anos, um novo desdobramento sobre o Transtorno do Espectro Autista entrou em pauta: a diferença no diagnóstico entre meninos e meninas. “Meninas costumam ser diagnosticadas mais tarde porque muitas vezes conseguem ‘camuflar’ os sintomas, imitando comportamentos sociais para se enturmar. Enquanto os meninos podem demonstrar comportamentos mais óbvios de agitação ou interesses restritos, as meninas podem ter interesses que parecem ‘comuns’ (como colecionar bonecas), mas de uma forma muito intensa e focada.” explica Kelvis.
Sobre o assunto, Rosângela, que foi diagnosticada com autismo e TDAH apenas aos 50 anos de idade, complementa: “muitos instrumentos de avaliação ainda são baseados em padrões predominantemente masculinos, o que pode dificultar a identificação de características mais sutis ou atípicas no perfil feminino”.
NÍVEIS DE SUPORTE – Kelvis explica que, de forma geral, o TEA se manifesta, em diferentes níveis, por meio de dificuldades em comunicação, interação social, comportamentos e interesses. Dentro da ampla variação de características, também temos o que chamamos de “níveis de suporte”, que indicam o quanto de ajuda aquela pessoa precisa para realizar atividades do dia a dia, sendo: Nível 1: Precisa de pouco apoio em tarefas cotidianas; Nível 2: Precisa de um apoio moderado; Nível 3: Precisa de apoio muito substancial para quase tudo.
“Ainda hoje, persistem julgamentos e preconceitos, como a associação equivocada com ‘retardo mental’ — termo, inclusive, ultrapassado e inadequado. Essa visão reducionista desconsidera a complexidade e a diversidade presentes no espectro”, explica Rosângela.
SINTOMAS DE AUTISMO NA INFÂNCIA – Na infância, Kelvis afirma que os sinais variam, mas vale a pena observar atrasos na fala ou na forma diferente de se comunicar; no pouco contato visual, nos interesses muito intensos por temas específicos (hiperfoco), nos movimentos repetitivos (estereotipias ou stimming – como balançar as mãos, girar objetos), além da dificuldade em brincar de “faz de conta” ou interagir com outras crianças.
Foram esses sinais que Ana Lima Begnini, mãe do João Renato Begnini, de 4 anos, notou no filho mais novo. Quando João tinha apenas 1 ano, Ana percebeu que ele apresentava um desenvolvimento diferente dos outros irmãos, especialmente na fala e reações a estímulos.
“Ele demorou mais pra falar, não respondia quando a gente chamava pelo nome, não tinha muito contato visual e também tinha essa sensibilidade com barulhos, que sempre chamou atenção. Só que no começo a gente vai esperando, né? A gente acha que é o tempo dele, a personalidade. Mas conforme ele foi crescendo e esses sinais continuaram, eu senti no coração que precisava buscar ajuda”, contou Ana.
TRATAMENTO = INTERVENÇÃO
Com tantas nuances, o diagnóstico do TEA não é algo simples ou rápido. Requer uma equipe multidisciplinar, que inclui avaliação neuropsicológica, psicopedagógica e avaliação médica, que pode ser conduzida por profissionais como neurologista, pediatra ou psiquiatra.
“A investigação [do TEA] ocorre por meio de entrevistas, observações clínicas e análise do funcionamento do indivíduo em diferentes contextos, como família, escola e ambientes sociais, garantindo uma compreensão ampla e integrada”, explica Rosângela.
O Transtorno do Espectro Autista não é uma doença. Como ressaltou Kelvis, trata-se de uma forma diferente do cérebro raciocinar. Porém, existe algo similar a um tratamento. “O tratamento, que preferimos chamar de intervenção, foca em ajudar a criança a desenvolver autonomia. As terapias baseadas em evidências científicas, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis, em inglês) e a Fonoaudiologia, ajudam a criança a aprender novas habilidades e a lidar melhor com o ambiente”, conta Kelvis.
MODELOS DE INTERVENÇÃO – Rosângela explica que hoje em dia existem diferentes modelos de intervenção que demonstram muita eficácia, ainda mais quando combinados. Além de intervenções mais clássicas, como ABA e o DIR/Floortime (Desenvolvimento, Diferenças Individuais e Relacionamento – uma abordagem baseada no brincar lúdico e afetivo), estudos apontam para modelos que se utilizam de ferramentas como animais e música, como é o caso da musicoterapia e da equoterapia.
Apesar de não fazer musicoterapia, a música é algo que ajuda muito o João Renato, que está com 4 anos. “Ele ainda tem algumas dificuldades na comunicação. O contato visual ainda é mais difícil, e o físico também. Ele fala bastante em terceira pessoa, tem repetição de algumas falas, mas quando entra a música, parece que tudo flui melhor. Ele vai no tempo dele, no ritmo da música, e isso ajuda ele a se organizar, a raciocinar e a desenvolver a linguagem.” explica Ana.

“Eu acho a Turma da Boiadeirinha um desenho muito bacana principalmente para crianças com TEA. É leve, educativo, trabalha rotina, regras, aprendizado e ainda tem essa parte musical que ajuda muito no desenvolvimento. Tem músicas, por exemplo, sobre alimentação, sobre o dia a dia, então a criança está assistindo, mas ao mesmo tempo está aprendendo e desenvolvendo várias habilidades.”, complementa ela.
PROCURANDO AJUDA – No caso de João Renato, Ana percebeu os sinais ainda bem cedo e não hesitou em procurar ajuda. Porém, muitos pais sentem receio de buscar um profissional, seja por falta de conhecimento, medo, insegurança, ou mesmo pensar que é algo desnecessário.
Sobre esse processo de investigação, Ana afirma: “Para quem desconfia, eu digo: confie no seu instinto. Se você percebe que tem algo diferente, não ignore, não coloque como “preguiça”, “manha” ou “jeito da criança”. Procure ajuda, procure um neuropediatra, busque orientação”.
Kelvis afirma que é importante entender que o diagnóstico não é um rótulo que limita a criança, mas uma chave que abre portas para ter o suporte que ela precisa. “Uma criança que se sente compreendida em suas necessidades e encontra um mundo preparado para recebê-la, cresce e se desenvolve de forma feliz, alcançando o máximo do seu potencial único. O diagnóstico precoce aliado à ciência e ao afeto é o melhor caminho para um futuro cheio de realizações”, explica Kelvis.
REFERÊNCIAS:
AUTISMO E REALIDADE. O que é o autismo? Disponível em: https://autismoerealidade.org.br/o-que-e-o-autismo/
HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Transtorno do espectro autista (TEA). Disponível em: https://www.einstein.br/n/glossario-de-saude/transtorno-do-espectro-autista-tea
LUNETAS. 6 animações sobre autismo para assistir com as crianças. Disponível em: https://lunetas.com.br/filmes-autismo-criancas/
PARANÁ (Estado). Secretaria da Saúde. Transtorno do Espectro Autista (TEA). Disponível em: https://www.saude.pr.gov.br/Pagina/Transtorno-do-Espectro-Autista-TEA
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Autism spectrum disorders. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/autism-spectrum-disorders