Não existe idade para gostar de desenho animado. Da criança até o adulto, todos podem se divertir assistindo a uma animação. Porém, em uma realidade na qual as telas ocupam cada vez mais a rotina, e os estímulos sensoriais estão em todos os lados, os desenhos animados precisam ir além: eles precisam competir pela sua atenção.
Assim entram em cena o que chamamos de “desenhos de alto estímulo”, que utilizam estratégias narrativas para captar nossa atenção: mudanças rápidas de cena, cores com altíssimos contrastes, sons intensos, luzes piscando, abundância de efeitos visuais e sonoros. O resultado? Ficamos hipnotizados.
COMO FUNCIONAM OS ESTÍMULOS
Todos esses estímulos impulsionam um aumento exacerbado de dopamina no nosso cérebro, ativando, mais especificamente, o que chamamos de sistema de recompensa cerebral. Por isso, o uso de telas em excesso cria em nós uma necessidade cada vez maior por esses estímulos de recompensa.
Segundo matéria da revista Forbes, “Como o Excesso de Tempo de Tela Afeta Seu Cérebro”, publicada em 2025, o uso excessivo de telas está remodelando o cérebro, afetando aspectos cognitivos e sociais, além de prejudicar o sono, a rotina, saúde física e ocular.
Assim, se as telas têm esse poder em adultos, imagine esses mesmos efeitos em uma criança. A Dra. Tamires Mariano, especialista em neurologia infantil, afirma que “os desenhos de alto estímulo expõem o cérebro infantil a uma velocidade muito acima daquela para a qual ele foi biologicamente programado. Com o tempo o cérebro passa a se acostumar com esse nível elevado de estímulo e o mundo real começa a parecer lento e pouco interessante. Isso pode impactar a atenção, tolerância à frustração e até a capacidade de brincar de forma mais criativa”.
INTERFERÊNCIA NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

Os primeiros anos de vida são fundamentais para o neurodesenvolvimento. É quando ocorre, de forma mais intensa, a formação das sinapses (conexões entre neurônios). É por meio das experiências da criança que o cérebro cria conexões, influenciando diretamente no desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e emocionais.
Além disso, o excesso de estímulos provocado pelas telas desencadeia um cansaço mental e aceleração interna. Assim, as crianças tendem a expressar esse desconforto com irritabilidade, comportamentos agressivos e birras.
Mas nem todo desenho animado é prejudicial para a criança. Indo contra ao viés puramente mercadológico, existem animações que são feitas especificamente para auxiliar no desenvolvimento infantil. São os desenhos de baixo estímulo.
“Os desenhos de baixo estímulo respeitam melhor o tempo do cérebro infantil. Eles têm narrativas mais calmas, pausas naturais, diálogos compreensíveis e histórias que permitam que a criança pense, antecipe e sinta. Isso favorece a linguagem, imaginação e compreensão emocional. A tela deixa de ser apenas um bombardeio sensorial e passa a ser uma ferramenta de aprendizado, principalmente se for na TV, sem que ela tenha o controle na mão, claro, e sempre com algum responsável por perto. Então não é apenas sobre a tela. É qual tela, com que finalidade e com quem ela assiste.”, explica Dra.Tamiris.
Se de um lado o excesso de estímulos afeta o desenvolvimento infantil, por outro, os estímulos na medida certa podem ser uma ferramenta de apoio.
DESENHOS IDEAIS PARA AS CRIANÇAS
Além de atuar como neuropediatra em Fortaleza-CE, a Tamiris Mariano produz conteúdos sobre filmes e desenhos educativos. Em seu perfil do Instagram, a especialista acumula 1.8 milhão de seguidores. Assim, ela explica que existem animações que ajudam a ensinar emoções, resoluções de conflitos, empatia, além de estimularem a linguagem e o raciocínio. No entanto, deixa um adendo muito claro: “desenho não substitui relação interpessoal. O aprendizado mais profundo ainda acontece nas trocas entre os pais, nas brincadeiras e nas experiências do dia a dia”.

Porém, mesmo com animações de baixo estímulo, existem recomendações específicas para exposição de crianças às telas. A Dra. Tamiris afirma: “Hoje a gente não fala apenas de tempo, mas de três pilares: idade da criança, qualidade do conteúdo e a presença dos pais”. Até dois anos de idade, não é recomendado o uso de telas, apenas para fotos, e chamadas de vídeo. Dos dois aos cinco, é permitido uma hora de tela na televisão. Dos seis aos dez, o recomendado é até duas horas por dia. “O cérebro infantil precisa de movimento, conversa, contato,e exploração do ambiente para amadurecer”, complementa.
Esse é um dos motivos da importância da presença dos pais quando a criança está assistindo a algum conteúdo. Em artigo intitulado “As Diferentes Categorias De Estímulos Das Telas E Seus Impactos No Desenvolvimento Da Linguagem Na Primeira Infância: Uma Revisão Integrativa”, publicado na revista ft em outubro de 2024, existem dois tipos de exposição às telas: o tempo ativo, quando há interação com o conteúdo, e o passivo, quando não há interação efetiva. Nesse caso, a falta de interação pode afetar negativamente o desenvolvimento da linguagem.
Segundo Tamiris, ao escolher o desenho para as crianças, os pais precisam ficar atentos a cinco pontos: o ritmo do desenho, a clareza da história, se os comportamentos são adequados para a idade, se existe conteúdo emocional positivo e, principalmente, como a criança fica depois de assistir. “O melhor desenho é aquele que, quando termina, devolve a criança para o mundo real com mais tranquilidade e não agitada e irritada. O desenho ideal não acelera a infância, ele acompanha o tempo da criança”.
TURMA DA BOIADEIRINHA
O projeto “Turma da Boiadeirinha” nasceu depois de muito estudo e preparação. Com a proposta educativa, guiada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o desenho animado e seus desdobramentos seguem propostas alinhadas ao bem-estar infantil e ao desenvolvimento integral da criança, como conteúdos interativos e de baixo estímulo.
Assista em: https://www.youtube.com/@turmadaboiadeirinha
fontes:
Oliveira, G. M. V., & Ribeiro, M. K. B. (2023). O uso excessivo de telas e os prejuízos no neurodesenvolvimento: uma revisão narrativa da literatura (Trabalho de Conclusão de Curso). Universidade Federal do Tocantins.
Takahara, A. B., Santos, E. F., Figueiredo, L. M., Oliveira, A. C. de M., Rosa, A. L., Pinto, A. Y. de F., … Rocha, A. C. da (2024). As diferentes categorias de estímulos das telas e seus impactos no desenvolvimento da linguagem na primeira infância: uma revisão integrativa. Revista ft Ciências da Saúde, 28(139).
REDAÇÃO Lumine. Desenhos de baixo estímulo: o que são e como eles ajudam no desenvolvimento da criança. 13 jan. 2026. Disponível em: https://blog.lumine.tv/o-que-sao-desenhos-de-baixo-estimulo/
MESQUITA, Renata Valerio de. Desenhos animados de alto estímulo. Lunetas, 15 maio 2024. Disponível em: https://lunetas.com.br/desenhos-animados-de-alto-estimulo/
CASTRILLON, Caroline. Como o Excesso de Tempo de Tela Afeta Seu Cérebro. Forbes Brasil, 12 out. 2025. Disponível em: https://forbes.com.br/carreira/2025/10/como-o-excesso-de-tempo-de-tela-afeta-seu-cerebro/
Escrito por: Maria Vitória Ticiani | AgroPlay Kids